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Como muitos de vocês que acompanham a redes sociais da Ideia de Impacto sabem, estive em férias por 40 dias na Espanha. Período mais que necessário para recarregar as energias já que são 3 anos sem dar uma pausa

Mas aproveitei esse tempo para ir compartilhando com vocês coisas interessantes e inovadoras que fui encontrando pelo caminho. Pra quem não viu é só seguir a página do IG @ideiadeimpacto e lá nos destaques tem algumas coisas da Espanha.

Essa viagem foi também um piloto para o projeto MUNDO AFORA, na verdade um “teaser” do projeto. Isso porque, no caso da Espanha compartilhei alguns momentos, histórias e no MUNDO AFORA vai rolar muito mais informação, entrevistas, conteúdos, imagens – quem quiser saber mais sobre o projeto o link é

TEMAS RELEVANTES NA ESPANHA

Mas vamos ao que interessa! Conhecer um pouco do que vi e ouvi na Espanha durante esse tempo de viagens. Primeiro importante dizer que fui para diferentes regiões do país. São regiões muito diferentes uma das outras, tanto do ponto de vista de cultura, como de realidade socioeconômica. Afinal, circulei por Madri, Andaluzia, Catalunha, País Vasco e Navarra.

Olhando para as iniciativas e projetos que encontrei, os temas que mais se destacaram foram os seguintes:

  1. MOBILIDADE: de longe foi o tema com mais iniciativas e ações que encontrei. Desde a integração de diferentes modais de transporte (ligando ônibus, trem, metrô, carro, bikes, moto e patinete) até coisas muito legais que vi em diferentes cidades. Em Madri os ônibus passam as informações na TV sobre próximo ponto e qual a integração com outros meios de transportes. Também é possível usar motos elétricas compartilhadas que estão espalhadas pela cidade pra tudo mundo usar (desde que com a habilitação apropriada, claro). Os patinetes elétricos são uma febre em todo o lugar da Espanha! Tanto os de uso compartilhado, como os particulares. Ninguém usa capacete e as pessoas podem entrar com eles nos bares, restaurantes, estações de trem, ônibus. A convivência entre bikes, patinetes, carros e motos não e um problema: nas ruas estão sinalizadas as faixas de cada um (uma mesma faixa permite carro e bike por exemplo), além das ciclofaixas que são usadas pelas bikes e patinetes (e que nem pintadas estão, têm apenas o símbolo das bikes pintado de quando em quando ou uma faixa sinalizando o limite com a calçada e pedestres). Sinalização de pedestres e bikes em todos os lugares e semáforos e calçadas perfeitas que permite a circulação de pessoas com carrinhos elétricos ou em cadeira de rodas. Em Bilbao vi pontos de carregamento de energia elétrica para carros e motos na calçada, assim como em centros comerciais. A consciência e responsabilidade das pessoas no trânsito é de chamar atenção e permite essa convivência tranquila entre todos.
  2. GESTÃO DE RESÍDUOS: todas as cidades onde passei, de norte a sul, têm coleta seletiva. Mesmo em cidades pequenas. Containers são colocados para a separação de cada tipo de lixo e, em alguns casos como Pamplona, há contêineres para materiais para compostagem e o aduba é depois recolhido pela população e usado. Outra coisa legal são contêineres para coleta de óleo usado. Em alguns lugares os contêineres são grandes e em outros menores com armazenamento subterrâneo (sobretudo em regiões onde ruas e calçadas são estreitas ou íngremes). E a distribuição deles pela cidade é tanta que da casa onde estava a estação de trem eram 15 min de caminhada e encontrei nesse percurso mais de 10 “conjuntos” de contêineres instalados. O caminhão passa para coletar os resíduos diariamente.
  3. ÁGUA: a gestão da água é um assunto importante com a seca resultante das baixas chuvas e dos eventos climáticos. Vi discussões sobre a recuperação de rios (não pela poluição, mas para tentar resolver o baixo nível de água), fontes públicas do século XVIII, mostrando que a seca não é um problema recente, ações para recuperação das matas ciliares e ao longo dos rios contribuintes para resolver a erosão e também a retenção das águas de chuva. Outra preocupação – na região do Pirineus ou Catalunha – é a perda da neve acumulada nas montanhas e que, com a chegada do calor, derretem e contribuem para o abastecimento das nascentes. Falando nisso, todos os rios das cidades estavam absolutamente limpos, curando lindamente cidades e sendo aproveitados pela população como praia, lazer, natação, remo – além da melhoria da qualidade de vida em geral.
  4. PRODUÇÃO LOCAL & ALIMENTAÇÃO: os espanhóis com quem convivi e encontrei cada vez mais se preocupam e consomem produtos locais. Isso para ser mais fácil nas cidades de pequeno e médio porte do que em Madri ou Barcelona (vou buscar dados para ver se essa percepção está correta). Mas as “huertas” existem em vários lugares e cidades. Esse consumo é valorizado e praticado diariamente e respeita inclusive a sazonalidade de legumes, plantas, frutas e folhas disponíveis em cada região. Também achei muito legal entrar em produtos nos supermercados e nos cardápios dos restaurantes códigos alergênicos presentes em cada alimento ou prato. Outra discussão em relação a alimentação foi a aprovação de normativa da União Europeia para limitar a porcentagem de uso de gorduras transgênicas nos alimentos.
  5. DIVERSIDADE: propagandas, informação, estruturas governamentais apoiando e informando as pessoas sobre temas de diversidade, feminicídio, violência contra mulheres, imigração, LGBTQIfobia. Assim como no Brasil, o embate entre posições conservadoras e progressistas tá rolando bem forte na Espanha, infelizmente com palavras, ações e ataques racistas, machistas, LGBTQI fóbicos e xenófobos muito presentes nesse momento na Espanha. Mas de um modo geral a sociedade espanhola apoia as ações afirmativas, as legislações, o compartilhamento de informações e também o ensino destes assuntos nas escolas.
  6. INOVAÇÃO E IMPACTO: a Espanha tem um investimento em inovação baixo em comparação a outros países como Reino Unido, Alemanha, Suécia ou EUA. Investe cerca de 1,5% do PIB, o que é 50% do que estes países de ponta têm investido em inovação em relação a seus PIBs. Há investimentos e linhas de crédito para PME, empreendedores e startups, assim com há também um ecossistema importante de hubs, incubadoras e aceleradoras. Já o apoio público esta muito abaixo do que se espera de um país desenvolvido e, isto é um reflexo direto das políticas de corte determinados pela União Européia depois da crise econômica.
  7. EMPREENDEDORISMO: como acontece no Brasil, a crise levou as empresas e os governos e principalmente as pessoas a pensar em abrir seu próprio negócio, ser um empreendedor ou criar sua startup. Muitos pensaram e viam esse movimento com a “salvação” para a crise que assolam o país. Isso também foi conveniente, em certa medida, para empresas e governos que apresentavam esse movimento ou onda com uma saída para o desemprego (que ainda atinge 14,7% dos espanhóis; e para efeitos de comparação, no Brasil o desemprego é de 12,4% atingindo 13,1 milhões de pessoas). Essa febre empreendedora diminuiu nos últimos anos, assim como muita gente acredita que essa diminuição também vai rolar com o ecossistema e suas incubadoras, aceleradoras e startups.
  8. REGULAMENTAÇÃO & INVESTIMENTOS: a regulamentação de uma lei que trate de um marco legal de startups e empreendedorismo de impacto é um tema pendente na Espanha. Por hora há um “balaio de gatos” misturando todo tipo de organização sob o nome “economia social”, o que inclui ONGs, cooperativas, fundações, negócios de impacto. O Brasil também está discutindo o tema através de uma consulta pública. Ainda assim, a Comisión Nacional de Mercado de Valores (CNMV) – a CVM espanhola – regulou a criação de fundos de investimentos voltados para o empreendedorismo de impacto ou social (o que, segundo alguns especialistas, foi reflexo da pressão de Bruxelas para colocar a disposição de seus membros milhões de euros ávidos por investimento. Como no Brasil, há uma dificuldade de alinhar as expectativas de retorno financeiro e geração de lucro dos investidores ao colocaram seu dinheiro nessas empresas (negócios de impacto, startups, etc.) e isto, tanto para prazos como para montantes. O resultado é que tem muito dinheiro no mercado, mas nem todos os atores do ecossistema de inovação e de impacto têm conseguido acessar estas fundos ou investidores – o primeiro fundo aprovado na CNMV, por exemplo, ao longo dos últimos 10 anos apoiou 14 startups.

DESAFIOS & OPORTUNIDADES

A partir de uma visão geral, os pontos positivos e os desafios no atual contexto espanhol são os seguintes:

POSITIVOS:

    1. Crescimento e fortalecimento do ecossistema de inovação e de impacto que coloca Barcelona e Madri entre as 10 cidades mais inovadora da Europa,
    2. Cada vez mais eventos, congressos, reuniões acontecem na Espanha para tratar destes temas, inclusive com nichos específicos (empreendedores 30 anos, mulheres empreendedoras, etc),
    3. Há universidades e centros de estudos focados e interessados na formação e na produção de conhecimento e pesquisas relacionadas com estes assuntos e tópicos,
    4. Há investidores e fundos interessados em financiar empresas e startups, mesmo em suas fases iniciais de negócios.

DESAFIOS

    1. A regulamentação e o reconhecimento das empresas e negócios de inovação e impacto precisa ser tratada e resolvida,
    2. Criar um padrão e implantar um sistema de medição e demonstração de impacto do ecossistema e seus atores,
    3. Atrair e manter talentos e capacidades necessários a inovação e aos negócios de impacto na Espanha
    4. Tirar a cultura da inovação e da geração de impacto das elites. Esses temas devem chegar a todos os perfis e camadas sociais espanholas, independente de seu nível social, econômico e educacional. Só assim o ecossistema será representativo e capaz de responder e encontrar soluções para os problemas e desafios da sociedade espanhola como um todo.

 PRÓXIMAS AVENTURAS

Com isso termino esse panorama sobre o que encontrei nas minhas férias e andanças pela Espanha. Até o início de Agosto vou publicar um infográfico trazendo dados, números e informações sobre a Espanha, além de links para acesso a relatórios e documentos com mais informações para vocês.

A próxima etapa do PROJETO MUNDO AFORA será no Peru! Primeiro país da América Latina a visitar e que ainda não conheço. Já comecei os contatos com algumas organizações e projetos, mas toda a ajuda, apoio e indicação é muito bem-vinda!