Recentemente a Pipe Social lançou o 2º Mapa de Negócios de Impacto Social + Ambiental. O Mapa tem uma medição a cada dois anos para trazer dados e números atuais sobre o perfil e atuação dos negócios, assim como um panorama dos esforços e agenda do ecossistema para apontar as lacunas, desafios e oportunidades de crescimento do setor no país.

A segunda edição do mapeamento conta com uma pesquisa quantitativa – 1.002 negócios compõem a base – e análises qualitativas do contexto do país, conduzidas por meio de entrevistas em profundidade com os empreendedores, além de visões dos principais especialistas em startups e negócios de impacto social do Brasil e exterior. A equipe conduziu, ainda, sessões de análise com diversos atores do ecossistema para construir uma visão de futuro do setor. O filtro para análise foi norteado por negócios com sustentabilidade financeira que não dependem ou dependem de subsídio para cobrir até 50% da despesa operacional. A pesquisa de campo foi realizada entre janeiro e fevereiro de 2019.

O Mapa traz alguns dados bem interessantes sobre o perfil de negócios de impacto e social no Brasil que vou destacar aqui – com alguns comentários e provocações para sua reflexão:

  • Sul e Sudeste Maravilha – concentração territorial: Assim como no 1º mapa, o Sudeste e o Sul são as regiões com maior concentração de negócios de impacto. Já as regiões Norte e Nordeste (que são as que apresentam maiores problemas e desafios socioeconômicos, segundo dados oficiais brasileiros) representam apenas 11% e 7% do chamado “ecossistema”. Mas que não se enganem aqueles que pensam que não há cidades e regiões inovadoras, criativas e criando soluções de impacto em outras partes do Brasil – aliás, mostrar histórias e conteúdos sobre isso é o mote do projeto MUNDO AFORA (clique para mais informações)
  • Poucas pessoas fazendo de tudo! A maioria dos negócios tem um pequeno grupo de pessoas envolvida na sua implementação: 70% tem até 5 pessoas na equipe, sendo que 77% usam freelancers em suas atividades e demandas.
  • Nós trabalhamos por projeto (job): De forma geral, sem considerar o perfil específico de cada negócio, no Brasil a contratação de equipes fixas e profissionais que pudessem acelerar e melhorar ainda mais os processos destes negócios ainda é um grande desafio em razão de custos trabalhistas e impostos mas também pelo perfil necessários aos profissionais dos negócios de impacto e empreendedorismo – que se confirma com dados de disponibilidade de vagas de trabalho no setor.
  • Cadê os profissionais preparados? Outro fator relacionado a este tema é a grande demanda e disponibilidade de vagas para profissionais no setor das chamadas startups de impacto – ou mesmo as mais “tradicionais” que é fruto, segundo especialistas, de profissionais sem a formação ou perfil necessários para atuar neste mercado: empreendedores, resilientes, adaptáveis, com conhecimentos de outros idiomas, com experiência ou conexão com o exterior, entre outras características necessárias a realidade do mundo atual.
  • É um mundo de homens! Pois 50% das organizações e iniciativas tem apenas homens ou mais homens em suas equipes. Ainda que sejam empresas e ambientes inovadores em comparação aos demais setores a questão da inclusão e da diversidade precisa ser um ponto de atenção para evitar repetição das falhas e erros que assistimos na indústria, no comércio e nos serviços no Brasil.
  • Recém-Nascidos! Os negócios de impacto são projetos e empresas jovens pois 38% deles têm menos de 2 anos de existência e aqueles com até 5 anos de estrada representam 36% do setor.
  • Informais: do ponto de vista de criação e formalização 76% foram formalizados. O contexto jurídico, legal e tributário brasileiro explica muito este quadro e é constante apontado com um dos grandes gargalos para alavancar ainda mais os negócios e o empreendedorismo no Brasil.
  • “Paitrocínio” é o que mantém os negócios: lembro da expressão de adolescência quando alguém era bancado pelos pais. Os negócios de impacto vivem uma situação semelhante porque absurdos 76% ainda dependem de recursos próprios para realizar e implantar os seus projetos. E apesar de todo o movimento e “moda” das aceleradoras e incubadoras, dos concursos de inovação apenas 11% têm recursos advindos destes programas e iniciativas. E 10% conseguem recursos através de sistemas financeiros (bancos, private equity e capital venture). E olha que dinheiro disponível não falta no Brasil. O que precisamos entender – e buscar soluções para isso o quanto antes – é porque as iniciativas não estão conseguindo acessar os investidores e os recursos existentes no mercado…
  • Mas a grana é pouca! O montante de investimento necessário para 62% dos projetos, negócios é de até 500 mil reais! Portanto, não estamos falando e alto grau de investimento, de rios de dinheiro que seriam necessários para fazer estes negócios avançarem. Iniciativas que viabilizem créditos, recursos a baixo custo por parte de bancos, agências de desenvolvimento, fintechs, fundos e outros mecanismos de financiamento seriam muito bem-vindos diante deste contexto.
  • Tudo organizado e pronto! 21% dos negócios estão na fase de organização e se preparando para a fase de tração, pré-escola e escala.
  • Me ajuda a colocar essa ideia no mundo! Mas o mais interessante é a demanda e oportunidade que temos para apoiar 46% de negócios que estão em algum momento do caminho antes de lançar o chamado MVP (produto viável mínimo), com informações, conteúdos, conhecimento e trocas. Claro que se lembrarmos que a maioria dos negócios têm até 5 anos de existência é natural que seja esta a fase do caminho do negócio empreendedor – aliás, qualquer um que já teve a experiência de pensar e implantar um negócio ou projeto sabe que há um tempo de desenvolvimento e maturação.
  • Repetindo as mesmas falhas que as empresas! Em razão da minha experiência com projetos de responsabilidade corporativa, investimento social e negócios sociais apoiados ou fomentados pelas empresas temos um grande ponto de alerta! Negócios de impacto são negócios que por sua natureza são criados e pensados para oferecer, de forma intencional, soluções escaláveis para problemas socioeconômicos e ambientais que o mundo enfrenta. A Carta de Princípios dos Negócios Sociais no Brasil[1]determina a medição de 4 critérios para avaliar o impacto das empresas, negócios, projetos de impacto no país e o mapa mostra recorrência das mesmas falhas que vi ao longo de 15 anos de trabalho com empresas: não definição de indicadores de medição de avaliação e impacto dos projetos e negócios, gestão não inclui atores das comunidades ou foco dos projetos que participam apenas das consultas realizadas para desenho, desenvolvimento, implementação ou replicação (escala) do negócio, poucos negócios incluem a comunidade na governança e processo decisório, ainda que declarem seu compromisso socioambiental.
  • Me dá uma ajuda ai! O foco de demanda de apoio dos negócios de impacto é a obtenção de dinheiro (48%), seguido de mentoria (22%), comunicação (19%) e networking (construção de relacionamentos e parcerias). E 21% ainda precisam de apoio em relação a gestão e relação com investidores – apesar de muitas já terem passado por processos de aceleração (39%), que, no entanto, ainda continua com uma demanda grande por atendimento (50% desejam, mas não participaram ainda)

O Brasil é um país criativo, inovador e de pessoas com capacidade de empreender, de criar e implementar novos negócios, novas empresas e mesmo negócios de impacto para solucionar os desafios socioeconômicos e ambientais da nossa realidade. Porém, ainda é um dos menos inovadores, estando na posição 98 entre os 137 países analisados pelo Global Entrepreneur Index 2018, atrás de países vizinhos com Bolívia, Argentina, Uruguai e Chile.

O mapa – assim como outras análises – trazem oportunidades interessantes para que o ecossistema possa apoiar a mudança deste contexto do ponto de vista de informação, conteúdos, tributação, apoios financeiros e de outros recursos, financiamento, gestão, planejamento, tendências, etc. Mas este processo deve acontecer em todo o país pois muita coisa está acontecendo em outras regiões e a troca e o contato entre as diferentes realidades e contextos, num país com a diversidade e as dimensões do Brasil, certamente contribuirá e muito para avançarmos nesse caminho – lembrando que das 36 cidades inovadoras mapeadas no Brasil, 16 ainda continuam localizadas no Sul e Sudeste, mas que as outras regiões tem polos de inovação e precisam ser conhecidas no resto do país (até porque, como salientei, nossos desafios estão mais concentrados naquelas realidades).