Em primeiro lugar é importante destacar desde o início que há diferentes visões sobre os conceitos e temas de inovação e negócios e empresas sociais. Assim não há um entendimento único ou unânime em relação a esses assuntos, bem como em relação aos conceitos e processos a eles relacionados.

Como alguém que vem trabalhando com temas “novos” para a grande maioria das pessoas como sustentabilidade, responsabilidade corporativa, engajamento, negócios sociais, investimentos sociais e afins, acho fundamental considerar um importante indicador – ou KPI se preferirem – do ponto de vista da comunicação e entendimento sobre essas áreas “esquisitas”: o KPI “tia Cotinha”. Não, não é uma piada! Esse foi o nome que dei para representar a enorme dificuldade que temos, nós os profissionais e gente interessada no assunto, em comunicar e traduzir para a maioria das pessoas com as quais convivemos esses assuntos e temas.

Ou seja, sempre que penso em como explicar algo a alguém, ou escrevo sobre algo me pergunto: será que o que estou falando, escrevendo e explicando faria sentido para a tia Cotinha? Sabe aquela pessoa que não tem a menor ideia do que você faz, do que são esses conceitos, será que ela (ou ele) conseguiria entender um pouco melhor sobre essas coisas a partir da que estou expondo?  Muitas vezes tive sucesso e em outras não. De qualquer forma, neste texto, considerem o KPI-TC como um elemento importante para minha escolha de forma e conteúdo.

Dito isso, seguem minhas considerações sobre o tema – e aqui já vou fazendo certas escolhas nesse mar de reflexões já existentes sobre um tema relativamente novo:

  • Não gosto muito do adjetivo “social”: primeiro porque normalmente o termo é associado a questões conectadas a assuntos que as pessoas identificam como sociais (e normalmente com a visão de “carência”): educação, moradia, saúde, alimentação, violência, etc. Segundo porque deixa de lado (ou pelo menos as pessoas não fazem “naturalmente” essa conexão) com os aspectos econômicos e ambientais que fazem parte da nossa sociedade e que demandam soluções.
  • Empreendedorismo Social: empreendedor social é uma pessoa com ideias capazes de provocar transformações com amplo impacto social tanto no âmbito das organizações sociais (ou sem fins lucrativos ou Terceiro Setor), das empresas privadas ou do setor público – normalmente, entretanto, o empreendedor social é associado ao Terceiro Setor (e esse é um exemplo claro do “problema” que destaquei no primeiro ponto desse texto…)
  • Empresa ou negócio social: na Europa o termo “social enterprise” e nos EUA “social business” são empresas que se constituem com o objetivo de resolver uma questão (problema ou oportunidade) social, ambiental ou econômico, e adotam o formato jurídico de uma empresa convencional . De forma geral, no Brasil, os termos negócios sociais e empresas sociais muitas vezes são usados como sinônimos, mas há quem faça uma diferenciação entre ambos: as empresas sociais estariam mais próximas das organizações sociais, enquanto os negócios sociais estariam mais próximos dos negócios convencionais – veja os conceitos utilizados pelo Yunnus Innovation Center e a Artemisia, por exemplo.

 

  • Inovação social é diferente não apenas no produto que gera, mas no processo:

A “Inovação social é distinta (da inovação “convencional”) tanto em termos de resultados quanto em formas de relacionamento, pois traz novas formas de cooperação e colaboração entre os envolvidos. Como resultado, os processos, métricas, modelos e métodos utilizados na inovação comercial ou tecnológica nem sempre são diretamente aplicáveis no campo social.”(Open Book of Innovation)

 “A inovação social é o processo de desenvolvimento e implantação de soluções efetivas para questões socialmente desafiadoras e muitas vezes sistêmicas no progresso social. A inovação social não é prerrogativa ou privilégio de qualquer forma organizacional ou estrutura legal. As soluções muitas vezes requerem a colaboração ativa de constituintes em todo o governo, empresas, negócios e as organizações sociais ou Terceiro Setor” (Stanford Social Innovation Review (SSRI).

  • Inovação social e inovação “convencional”: se de um lado é necessária para que haja, digamos um fortalecimento, “marcar” uma presença em relação à inovação social, por outro fragmenta a inovação em caixas e isso pode levar a separar, dividir, encaixotar (se é que já não o fez) a inovação em o que é social e o que é do mundo real, entre o que é social e o que é “dos negócios” – assim como a responsabilidade corporativa é vista como algo separado e diferente do campo dos negócios (quando na verdade há questões de negócios que podem e devem ter potencial de responder a desafios e oportunidades socioeconômicas e ambientais – mas esse é um tema para outra conversa). Assim este seria um termo mais amplo e abrangente do que os demais anteriormente citados.

Dito isso e a partir desses alinhamentos entramos no campo dos impactos e das soluções.

  • Solução: vem do latim solutĭo, que tem duas grandes concepções. Por um lado é a ação ou efeito de resolver uma dificuldade, uma dúvida, uma incógnita, um tema. De outro o efeito de dissolver (sim, das aulas de Química do colégio). Assim, solucionar algo consiste, portanto em resolver o mesmo ou dá-lo por concluído. A escolha de falar-se em soluções de impacto é uma decisão que procura reforçar a ampla possibilidade de caminhos, maneiras, jeitos de encontrar a resolução de um problema ou a identificação de uma oportunidade.
  • Impacto: são os efeitos tangíveis e intangíveis (consequências) da ação de uma coisa ou da entidade ou influência sobre outra.
  • Precisamos responder aos desafios, mas também às oportunidades: é preciso evitar a síndrome da depressão, o efeito Lexotan, o foco nos problemas que sempre tende a ser mais forte quando falamos sobre questões sociais, econômicas ou ambientais. Um conhecido meu dizia que a “sustentabilidade precisa ser sexy”. E o mesmo se aplica aqui. A geração e implantação de soluções capazes de responder aos desafios e oportunidades do ponto de vista social, ambiental e econômico devem ser super sexy! Precisamos construir uma comunicação e um posicionamento que seja interessante, atrativo, estimulante para as pessoas!
  • É preciso ter uma visão e uma atuação sistêmica: soluções que respondam desafios ou alavanquem oportunidades podem surgir de ferramentas, processos, tecnologias novas, conhecimentos antigos adquiridos, conhecidos, criados, combinados por pessoas, grupos, comunidades, governos, empresas, organizações sociais. Num mundo complexo e inter-relacionado como o nosso as soluções precisaram ser construídas de forma cooperativa e conjunta para dar conta do recado. Obviamente sabe-se que há diferentes culturas empresariais, organizacionais e sociais que têm diferentes graus de abertura e desejo de cooperar e construir de forma conjunta. Sorte daqueles que forem mais permeáveis a estas conexões e cooperações pois terão mais chances e adaptabilidade ao contexto do século XXI.

Considerando a visão que tenho do meu trabalho, do que venho desenvolvendo nos últimos anos tenho um alinhamento com o conceito de geração de soluções de impacto como aquelas que buscam responder aos desafios e oportunidades para os desafios socioambientais e econômicos atuais e que possam, também, ser desenhadas, implantadas e replicadas em curto e médio prazo.