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  • Números econômicos e de inovação nas favelas
  • Potencial da favela na inovação de produtos, serviços, comunicação e geração de conteúdo – para grandes e médias empresas

Semana passada estava dando aula pra o pessoal que faz os cursos de Pós-Graduação em Responsabilidade Corporativa e também para a turma de Projetos Sociais no Território. A minha parte do conteúdo está relacionada aos temas de engajamento e desenvolvimento de relacionamentos, tanto para empresas como para organizações de uma forma geral. Passar ferramentas, abordagens, mas principalmente compartilhar histórias sobre como o “engajamento” pode ser uma ferramenta incrível para encontrar novas oportunidades de atuação, de criação, de investimento, de desenvolvimento.

Como engajamento está muito relacionado a visão da relação com a “comunidade” – que tem as mais variadas definições e interpretações a depender de quem está olhando pra tal da comunidade. Resolvi trazer o tema das favelas porque na maioria das pessoas essa “comunidade” é vista como um lugar associado a pobreza, a violência, desprovido das condições básicas de vida, um lugar olhado com os olhos da falta e da carência.  Não podem estar mais enganadas as pessoas, os negócios e as empresas que ainda enxergam as favelas brasileiras desta maneira.

Segundo dados da Data Favela, são 12,3 milhões de pessoas vivendo nessas comunidades em todo o Brasil o que representa 5% da nossa população. Estes moradores movimentam R$ 68,6 bilhões por ano. Em 2015 67% dos lares já são equipados com televisões de plasma, LED ou LCD, 75% das casas têm máquina de lavar roupas, 24% dos moradores possuem carro e no caso das motocicletas 14% dos habitantes eram donas de uma. Mas nem só de consumo vivem as favelas.

Segundo a mesma pesquisa, quatro em cada dez moradores de favelas têm vontade de montar o seu negócio – ou empreender, como está na moda. Mais da metade desses aspirantes a empreendedores ainda pretende abrir o negócio em até três anos. Entre os moradores que pretendem ter o próprio negócio, 63% querem fazer isso dentro da favela onde vivem. Já 19% têm a intenção de empreender fora de sua comunidade, mas em um bairro próximo, e 15% em bairros mais afastados de casa. A maioria (56%) dos futuros empreendedores das favelas brasileiras pertence à da classe C, 38% são da classe baixa e 7% da classe alta. Mais de 50% deles têm 25 anos e são casados, sendo 49% homens e 51% são mulheres.

Além disso as favelas estão conectadas. A pesquisa mostra que 61% dos moradores acessam a internet pelo menos uma vez por semana. Os jovens são os mais conectados – 87% das pessoas entre 14 e 18 anos acessam a web uma vez por semana ou mais. Mais acessíveis nos últimos anos, os smartphones estão ocupando o espaço de computadores e notebooks e tornaram-se a principal fonte de acesso à web na favela. Atualmente 75% dos moradores acessam a internet pelo smartphone – cinco anos antes eram 41%. Em relação as redes sociais mais usadas pelos moradores é o Facebook: 92% dos moradores têm Facebook, 22% possuem Twitter, 17% têm Instagram e 7% usam o LinkedIn.

É por essas e outras que a favela e a inovação andam de mãos dadas. E aqui vou usar o conceito de inovação como aquele processo local, que cria redes de pessoas, encontros, novas comunidades e que traz felicidade. Além disso a inovação social, ou seja, aquela que usa as novas configurações de comunidades bem-sucedidas e desenvolvimento global a nível local. Por isso novos negócios, produtos e serviços estão surgindo – e podem surgir – a todo tempo nas comunidades e favelas pelo Brasil a fora.  Negócios, produtos e serviços que podem ser criados nas comunidades, mas também aqueles que podem ser criados pelas grandes empresas do mercado se elas deixarem de ver a favela como um lugar de “faltas” e entender essas comunidades como um mercado com nichos e características próprias, como poder de compra, com criatividade, com soluções e força!

As empresas devem deixar de ver as favelas como um lugar para mera pesquisa de comportamento de consumo, de definição de estratégia de marketing ou para testes de produtos. As empresas devem trabalhar para apoiar e surfar nesse movimento destas comunidades e assim poderem apoiar negócios (inclusive os sociais), desenvolver e aprimorar produtos e serviços, adequar suas companhas de comunicação (em todos os canais), gerar melhores conteúdos (on e offline), aprender com a diversidade. Enfim todos temos a ganhar e muito entrando na quebrada!

PS: Uma das muitas experiências na favela: https://youtu.be/BMWJZvF9Iyg