Um recente artigo publicado no Jornal Valor (Sustentabilidade está mais no discurso que na prática, 12 de Setembro de 2017) propõe o questionamento e a reflexão sobre em que medida a sustentabilidade – e estou usando o mesmo termo que a publicação e a pesquisa utilizaram, apesar de acreditar que já está mais que desgastado e tenha se tornado uma “palavra grávida” onde cabe tudo dentro – a sustentabilidade faz parte e é incorporada nos negócios das empresas. Alguns destaques interessantes da matéria (sobre os quais adiciono algumas reflexões breves a partir da minha experiência de trabalho e vivência em empresas de diferentes setores e em diferentes países):

  • Entre 2014 e 2016, cresceu de 51% para 78% o número de empresas onde a agenda de sustentabilidade é liderada pelo CEO: a incorporação do tema na governança da empresa e sendo capitaneada pela liderança é algo extremamente relevante pois sinaliza uma bandeira da empresa para seu público interno e externo, mas ela deve ser desdobrada para outros níveis da governança e se traduzir em um plano de ação efetivo para acontecer. A mera “presença” do tema junto à alta liderança não garantirá a incorporação e a tradução da sustentabilidade nos negócios e nas práticas das empresas.

FUNDAMENTAL TRADUZIR O TEMA DA SUSTENTABILIDADE PARA AS QUESTÕES RELEVANTES PARA CADA UMA DAS DIRETORIAS E ÁREAS DA EMPRESA A FIM DE QUE SEJA EFETIVAMENTE INCORPORADA, ENTENDIDA E LEVE AO ENGAJAMENTO. NEM QUE SEJA NECESSÁRIO “USAR UM FILME LEGENDADO E DUBLADO” PARA ISSO

  • A iniciativa mais associada com a prática da sustentabilidade é a redução de gastos decorrente da melhoria da eficiência (79% dos pesquisados): para mim isto é reflexo de uma visão ainda limitada em focada nos processos produtivos e operacionais e que está muito aquém das potencialidades de alavancar os negócios da empresa ao tratar do tema da sustentabilidade (e responsabilidade corporativa). Me pergunto se é herança da cultura de saúde, segurança e meio ambiente que ganha força no Brasil a partir dos anos 80 – ou seja, o foco mais lembrado é tem ligação com algo relevante e crescente que aconteceu há 30 anos! Obviamente o tema de eficiência de processos, gestão de resíduos, redução de impactos socioambientais nas operações e na cadeia é algo estremamente relevante e desafiador, mas não deveria ser o ponto mais relevante em pleno século XXI
  • Sustentabilidade como elemento importante para recuperação da imagem das empresas (citada por 68% dos respondentes): no contexto recente brasileiro questões como ética, transparência, compliance e combate a corrupção tornaram-se elementos chaves para a gestão de riscos e oportunidades para as empresas e isto tem e terá reflexos nos públicos internos e externos tangenciando questões como atração e retenção de mão de obra, percepção de marca, branding, gestão de riscos nas operações, relacionamento com cadeia de fornecimento, só para citar algumas áreas
  • Aumento muito grande das pessoas que consideram que as empresas promovem a sustentabilidade, mas não estão realmente engajadas no assunto (de 63% para 93% em 2 anos): para mim este é o X da questão em relação à sustentabilidade e os negócios. O tema só será incorporado nos negócios e engajar o público interno quando e se for “traduzido” para questões relevantes para as diferentes áreas. Sem isso não acredito que haverá mudanças significativas.
    A tarefa mencionada no meu comentário ao último ponto não é nada fácil. Como sempre digo, faz quase 20 anos que eu (assim como outros profissionais) tentamos traduzir sustentabilidade e responsabilidade corporativa para os negócios e nem com um filme dublado e legendado temos alcançado os resultados que desejamos…

“PORQUE FUI CHAMADO PARA DISCUTIR SUSTENTABILIDADE SE NÃO TENHO NUNHUMA RELAÇÃO COM O TEMA? NÃO ENTENDO O QUE ESTOU FAZENDO AQUI HOJE…(Diretor de RH, Gás e Petroleo de uma empresa brasileira)

Para dar um exemplo concreto e real do que estou colocando vou contar uma história breve que ocorreu há alguns anos numa reunião em uma empresa de grande porte brasileira:

Estava facilitando uma reunião para discussão de uma política estratégica de sustentabilidade quando o diretor responsável pela área RH de gás e petróleo (uma das áreas de atuação da empresa) me disse que não entendia porque havia sido chamado à reunião já que não tinha nenhuma relação com o tema. Comentei se ele se lembrava do acidente da BP e a paralização das operações no Golfo do México. Como estava falando com “gente da sustentabilidade” ele pronta mente manifestou sua solidariedade aos animais e ao impacto ambiental no oceano causado pelo derramamento. Diante desse comentário eu lhe disse que o acidente da BP no Golfo do México tinha sido positivo para a empresa que pode “repatriar” mão de obra nacional e estrangeiros para trabalhar no Brasil mas a um custo de 3% a 6% de aumento nas remunerações, mas que isso não duraria pois as operações no Golfo seria retomadas e outras empresas iniciariam a disputa pela mão de obra altamente qualificada, o que tenderia a aumentar os custos. E lhe perguntei o quanto seria sustentável em longo prazo “bancar” este aumento e se acha que essa era uma estratégia eficiente para a empresa do ponto de vista de obtenção e retenção de mão de obra. Ele perguntou se eu tinha experiência com RH ou havia analisado os números e documentos da sua área. Minha resposta foi: não apenas estudo sustentabilidade. E ele ficou na reunião até o final!